Entenda como a rashguard pode contribuir para proteção, conforto e higiene durante o treino de Jiu-Jitsu
No Jiu-Jitsu, o contato físico faz parte do esporte. Durante um treino, braços, tronco, pernas e outras áreas do corpo permanecem em contato constante com o adversário, com o kimono e, indiretamente, com o tatame. Essa característica torna a saúde da pele um aspecto importante da rotina de quem pratica a modalidade.

É nesse contexto que a rashguard usada por baixo do kimono ganhou espaço entre praticantes de Jiu-Jitsu, especialmente nos treinos. A peça pode ajudar a reduzir o contato direto da pele com o tecido do kimono, controlar o suor e diminuir o atrito durante a movimentação.
Mas existe uma questão mais importante: o que a ciência realmente diz sobre isso?
As pesquisas disponíveis não permitem afirmar que a rashguard seja capaz, sozinha, de impedir infecções. Por outro lado, estudos realizados principalmente com lutadores e outros atletas de esportes de contato mostram que infecções cutâneas são um problema relevante nessas modalidades e que medidas destinadas a reduzir lesões da pele, melhorar a higiene e limitar o contato com superfícies contaminadas fazem parte das estratégias de prevenção.
Infecções de pele são um problema conhecido nos esportes de contato
A preocupação não é apenas teórica.
Uma análise epidemiológica publicada no Journal of Athletic Training avaliou dados de 17 programas da NCAA de luta olímpica masculina entre as temporadas 2009–2010 e 2013–2014. Foram registrados 112 casos de infecção cutânea em 87 atletas durante 78.720 exposições esportivas, correspondendo a uma taxa geral de 14,23 infecções por 10 mil exposições.
O estudo identificou infecções virais, bacterianas e fúngicas. Entre os problemas mais relevantes para atletas de esportes de contato estão herpes gladiatorum, infecções bacterianas e dermatofitoses, conhecidas popularmente como micose ou "ringworm".
Embora os dados sejam provenientes da luta olímpica e não especificamente do Jiu-Jitsu, existe uma característica em comum: o contato físico intenso e repetido entre os atletas.
Uma revisão científica sobre infecções cutâneas em lutadores também aponta que herpes gladiatorum, infecções bacterianas de pele e infecções por dermatófitos estão entre os principais problemas dermatológicos observados nesse ambiente.
Herpes, bactérias e fungos podem ser transmitidos pelo contato
Entre as infecções mais conhecidas está o herpes gladiatorum, causado principalmente pelo vírus herpes simplex tipo 1.
A transmissão ocorre predominantemente pelo contato direto da pele com áreas infectadas ou secreções. Pequenas abrasões também podem facilitar a entrada de microrganismos.
Outro problema é a tinea gladiatorum, uma infecção provocada por fungos dermatófitos. O agente mais frequentemente identificado em estudos com lutadores é o Trichophyton tonsurans.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2019 reuniu 13 estudos, envolvendo 4.818 lutadores e 391 amostras de tatames. A prevalência de tinea gladiatorum entre os atletas variou bastante entre os estudos, de 2,4% a 90,62%, com uma prevalência combinada estimada em 34,29%.
Os próprios autores ressaltaram a grande heterogeneidade entre os estudos, o que significa que esse número não deve ser interpretado como uma taxa universal para todos os praticantes de esportes de combate.
Ainda assim, o conjunto das evidências demonstra que infecções fúngicas são uma preocupação concreta em modalidades nas quais existe contato corporal intenso.
O que uma rashguard pode fazer?
É importante separar aquilo que é comprovado cientificamente daquilo que é uma consequência física plausível do uso da peça.
A rashguard cria uma camada de tecido entre a pele e o ambiente externo. Isso pode reduzir parte do contato direto da pele com o tecido do kimono e também pode diminuir o atrito entre a pele e determinadas superfícies durante a movimentação.
A peça também pode ajudar no gerenciamento do suor, dependendo do tecido e da construção utilizada. Para muitos atletas, isso significa maior conforto durante treinos prolongados.
Entretanto, não existem evidências clínicas suficientes para dizer que uma rashguard funciona como uma barreira antimicrobiana ou que seu uso, isoladamente, reduz determinada porcentagem de infecções em praticantes de Jiu-Jitsu.
Essa diferença é fundamental.
Uma rashguard convencional não deve ser confundida com um equipamento médico ou com uma roupa especificamente desenvolvida para eliminar microrganismos.
A rashguard não substitui higiene e cuidados com a pele
Se existe uma mensagem importante na literatura científica sobre o assunto, é que a prevenção de infecções em esportes de contato depende de um conjunto de medidas.
O CDC recomenda que atletas mantenham uma boa higiene, tomem banho logo após a atividade física, lavem e sequem adequadamente roupas e uniformes após cada utilização, não compartilhem peças de vestuário ou objetos pessoais e mantenham cortes e ferimentos cobertos.
A orientação também inclui a limpeza adequada de equipamentos e superfícies compartilhadas.
Portanto, colocar uma rashguard limpa antes do treino e depois guardá-la dentro da mochila para reutilizá-la posteriormente não representa uma estratégia adequada de higiene.

A rashguard precisa ser lavada após cada treino, assim como qualquer outra peça que permaneça em contato direto com o corpo e acumule suor.
O suor não é o único problema
É comum associar infecções de pele simplesmente à quantidade de suor produzida durante o treinamento. A questão, porém, é mais complexa.
Os riscos estão relacionados principalmente à combinação de contato físico intenso, pequenas lesões ou abrasões na pele, exposição a pessoas infectadas e contato com superfícies ou objetos contaminados.
Em 2014, uma investigação epidemiológica conduzida pelo Departamento de Saúde Pública do Condado de Maricopa, no Arizona, identificou um surto de doenças de pele entre lutadores de escolas secundárias.
Foram identificados 47 casos, sendo 37 confirmados. Entre os diagnósticos estavam impetigo, infecção por HSV-1, tinea corporis e MRSA.
O episódio mostrou como infecções podem se espalhar rapidamente em ambientes de esporte de contato. Em um dos episódios descritos no relatório, um lutador com lesões de HSV-1 participou de um torneio apresentando lesões descobertas. Nos dias seguintes, outros atletas que haviam participado da competição desenvolveram a infecção.
O caso reforça um princípio importante: roupas adequadas podem fazer parte da prevenção, mas não substituem o controle de atletas com lesões suspeitas, a higiene e a desinfecção das superfícies.
Pequenas abrasões merecem atenção
Durante uma sessão de Jiu-Jitsu, a pele pode sofrer atrito repetidamente contra o kimono, o tatame e o próprio corpo do adversário.
Pequenas escoriações podem passar despercebidas, especialmente em treinos intensos.
Esse aspecto é relevante porque o CDC identifica cortes e abrasões como fatores que podem facilitar a entrada de bactérias causadoras de infecções, incluindo o MRSA.
Uma rashguard pode reduzir parte do atrito direto em determinadas regiões do corpo. Porém, isso não significa que ela impeça completamente abrasões ou transmissão de microrganismos.
Além disso, uma rashguard suja ou reutilizada sem lavagem pode se tornar mais um elemento de exposição.
Rashguard por baixo do kimono também pode melhorar o conforto
Existe ainda uma vantagem que não depende de uma alegação médica: conforto durante o treino.
Uma rashguard de boa qualidade pode acompanhar os movimentos do corpo sem ficar solta, reduzir a sensação de atrito em algumas áreas e manter o tecido mais próximo da pele durante movimentos como raspagens, passagens de guarda, montadas e transições.

Esse benefício é principalmente funcional e individual. A experiência pode variar de acordo com o material, a compressão, o tamanho e a preferência de cada praticante.
Por isso, não é necessário transformar a rashguard em um equipamento de proteção sanitária para reconhecer sua utilidade dentro da rotina de treinamento.
E na competição?
Outro ponto importante é diferenciar treino e competição.
As regras sobre o uso de rashguard sob o kimono podem variar conforme a federação, organização e categoria do atleta. Algumas competições estabelecem regras específicas sobre vestimenta, inclusive quanto ao uso de camisetas de compressão ou rashguards.
Por isso, quem pretende competir deve sempre consultar o regulamento específico do evento.
No treinamento, a decisão costuma ser mais simples: quando permitida pela academia, a rashguard pode ser utilizada como uma camada adicional de roupa, principalmente por questões de conforto, controle do suor e redução do contato direto da pele com o kimono.
O kimono continua precisando de cuidados
Usar rashguard não significa que o kimono possa ser utilizado várias vezes sem lavagem.
O tecido do kimono permanece em contato com o corpo e com outras superfícies durante todo o treinamento. Por isso, a higiene da peça continua sendo fundamental.
A recomendação geral para atletas é lavar as roupas utilizadas no exercício após cada uso e secá-las completamente.
O mesmo princípio vale para a rashguard.
Também é importante manter unhas curtas, cuidar de ferimentos e evitar treinar quando houver lesões de pele suspeitas ou infecções diagnosticadas, seguindo a orientação de um profissional de saúde.
Uma camada extra de proteção, não uma garantia contra infecções
A melhor maneira de interpretar o uso da rashguard é como uma medida complementar dentro de uma rotina maior de higiene e prevenção.
A ciência demonstra que esportes de contato apresentam risco de transmissão de infecções cutâneas. Também existem evidências de que abrasões, contato pele a pele, equipamentos compartilhados e superfícies contaminadas participam desse processo.
O que ainda não está demonstrado de maneira adequada é que simplesmente vestir uma rashguard sob o kimono seja capaz de reduzir, por si só, a incidência dessas infecções.

Por isso, a escolha pode ser justificada por vários fatores: conforto, controle do suor, redução do atrito e criação de uma camada adicional entre a pele e o ambiente. Mas ela deve vir acompanhada de medidas comprovadamente importantes, como lavar o kimono e a rashguard depois de cada treino, higienizar o tatame, manter ferimentos cobertos e procurar avaliação médica diante de lesões suspeitas.
No Jiu-Jitsu, cuidar da pele faz parte da preparação tanto quanto cuidar do equipamento. Uma rashguard pode ser uma boa aliada nessa rotina, desde que seja entendida pelo que realmente é: uma peça esportiva que pode contribuir para conforto e higiene, e não uma barreira médica capaz de impedir infecções.
Fontes
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